domingo, 24 de outubro de 2010

Notícia de Jornal - Fernando Sabino



Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.

Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádiopatrulha, por que haveria de ser daminha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, um homem morreu de fome.

sábado, 23 de outubro de 2010

Queria Pensar...


Acordei disposta a pensar em política, na verdade, estava em busca de uma decisão. Qual seria o melhor caminho para o Brasil?


Queria pensar durante o café, mas estava atrasada, engoli um pão e sai com o carro.


Queria pensar no carro, mas o trânsito e o medo de ser assaltada ocupavam meu pensamento.


Queria pensar no trabalho, mas eram tantos os problemas...


Queria pensar durante o almoço, mas precisava descansar alguns minutos.


Queria pensar na faculdade, mas a filosofia ocupava minha cabeça naquela aula.


Queria pensar no bar, mas precisava de um tempo para relaxar e dar risada.


Queria pensar quando cheguei em casa, então, arrumei tudo para o dia seguinte. Deitei e comecei a pensar no aluguel, nas contas, nas pendências do trabalho, na pesquisa científica, no fim de semana...


Adormeci.

Sonhei com um país melhor!






















Muitas pessoas criticam a população brasileira por estar alienada sobre as questões políticas.
Não discordo sobre a importância de conhecer o que é política e quais são suas influências na vida de cada um, pelo contrário acredito que política deveria ser um assunto de extrema importância para todo e qualquer brasileiro.

O problema é justamente este, política não é um assunto interessante.
Não é interessante para o governo, pois quanto menos a população conhecer menor será a pressão popular, para construir escolas por exemplo.
Não é interessante pra população, pois existem prioridades (individuais), moradia, alimentação, saúde, educação, transporte, lazer... não há tempo para pensar sobre política.
A falta de interesse no assunto, faz com que o governo continue segurando as cordas que nos levam para o lado que desejarem.

Não acredito que a população seja a única e principal responsável por sua falta de interesse em política, a educação, teoricamente, deveria proporcionar uma atitude crítica e autônoma, porém a realidade difere muito desse pressuposto.

Sem atribuir culpa pela alienação dos brasileiros, saliento que a política é sim importante e interessante.

Afinal, quando se esta jogando saber as regras é crucial!