E mais uma noite lá estávamos nós.
Ela tomava seu chá e eu degustava o habitual, não nos saciávamos na verdade, comer era só mais uma ação daquela rotina sem graça.
Falávamos. Mas a lacuna do não dito era quase palpável.
Nossas lágrimas invisíveis escorriam ao mesmo tempo, talvez por isso nossos olhos depressivos se entendessem.
Por vezes se consolavam, mas nem sempre queriam ser afagados.
Entre nós havia um estranho sentimento masoquista de quem gosta de sofrer.
Ela fumava e eu tentava resolver toda nossa (falta de) vida. O que queríamos afinal?
Felicidade é muito amplo e pensando calmamente eu a tinha, ela também.
Como personagens de uma história de autor sem bom gosto, invejávamos a inquietação apaixonada dos romances, a espontaneidade do teatro, a elegância dos clássicos e a explosão de sentimentos da música.
Aqueles poucos minutos pareciam eternos. Não via estrelas e a fumaça nos envolvia como presságio de morte.
Logo voltaríamos a falar da genialidade de outros que vieram antes de nós.
De que realmente serviriam as milhares de páginas lidas e discutidas?
Aquela noite ela me disse o que ouvi repetidas vezes em minha mente.
Disse tão claramente que por fim entendi.
O resto da noite se arrastou melancolicamente...